O Ministério Público (MPES) informou nesta quarta-feira (3), que a Promotoria de Justiça de São Mateus, denunciou seis pessoas envolvidas no sequestro e assassinato do adolescente Lázaro Airam dos Santos Pereira. A Justiça acolheu a denúncia e tornou os investigados réus pelos crimes de sequestro qualificado (contra menor de 18 anos), homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, dissimulação, emboscada e meio cruel, além de recurso que impossibilitou a defesa da vítima), ocultação de cadáver e associação criminosa armada.
Conforme o MPES, responderão pelos crimes o cabo da Polícia Militar Denis Marchiore e os apontados como comparsas na ação criminosa, Lucas Eduardo Soares Chaves dos Santos, Walisson Pereira Carvalho, Felipe Silva Rodrigues, Alex Nascimento Paixão e Yan Krislan Pereira Dias. Todos permanecem presos preventivamente, ou seja, por tempo indeterminado.
Segundo o Ministério Público, as investigações reuniram diversas provas, incluindo imagens de videomonitoramento, dados do cerco inteligente, geolocalização de celulares da vítima e dos denunciados, além de testemunhos colhidos. O cruzamento dessas informações permitiu concluir que os acusados concorreram para a prática dos crimes narrados na denúncia.
Na decisão que recebeu a denúncia, o a Justiça de São Mateus destacou a extrema gravidade e a hediondez dos crimes. O magistrado ressaltou que o corpo do adolescente foi localizado 22 dias após o desaparecimento, enterrado em uma cova profunda, em local ermo e de difícil acesso, apresentando sinais de tortura.
O MPES também requereu que os réus, caso condenados, indenizem a família da vítima em, no mínimo, R$ 200 mil, a título de danos morais e materiais. Além disso, solicitou a manutenção das prisões preventivas e que a Corregedoria da Polícia Militar apure a conduta disciplinar do policial militar denunciado.
O processo foi arquivado em relação a um dos sete investigados, por ausência de provas suficientes para a denúncia, sem prejuízo de futura reabertura caso surjam novos elementos.
O Ministério Público do Estado do Espírito Santo disse que mantém “seu compromisso inabalável com a defesa da vida, a proteção da sociedade e o combate à criminalidade em todas as suas formas”.
O desaparecimento do adolescente Lázaro, de 17 anos, em São Mateus, começou no dia 12 de junho, quando ele saiu de casa para entregar uma televisão vendida por um amigo e não retornou. A mãe notou a ausência ainda naquela tarde, mas só no dia seguinte conseguiu registrar o boletim de ocorrência, após procurar em delegacias e batalhões da região.
Imagens de câmeras de segurança obtidas pela família mostraram Lázaro ao lado de homens carregando uma televisão e, em seguida, entrando em um carro branco com teto preto. A partir desse momento, ele não foi mais visto.
A primeira prisão ocorreu em 17 de junho, quando Felipe Silva Rodrigues, de 24 anos, foi detido. Ele admitiu ter negociado a venda da TV, mas a polícia descobriu que o aparelho estava escondido em sua casa. Segundo a investigação, a venda foi apenas um pretexto para atrair a vítima.
Nos dias seguintes, o Ministério Público instaurou procedimento e a Justiça decretou a prisão temporária de Felipe. Em 26 de junho, outros dois suspeitos, Lucas Eduardo Soares Chaves e Walisson Pereira Carvalho, também foram presos.
No início de julho, as investigações avançaram com novas detenções. Yan Kryslan Pereira Dias, de 26 anos, e o cabo da PM Denis Marchiore, de 33, foram apontados como envolvidos no sequestro. O policial era, segundo a polícia, o motorista do veículo usado no crime.
Em 2 de julho, foi preso Alex Nascimento Paixão, de 24 anos, acusado de articular o encontro com a vítima. Enquanto isso, buscas foram intensificadas em áreas de mata na região de São Mateus, após denúncias anônimas.
No dia 4 de julho, policiais localizaram um corpo enterrado em uma cova profunda na zona rural do município. A família reconheceu Lázaro no dia seguinte, por meio de uma tatuagem no pescoço.
O adolescente foi sepultado em 6 de julho. No dia seguinte, a Polícia Científica confirmou que materiais recolhidos em veículos dos suspeitos passariam por perícia para auxiliar na elucidação completa do caso.
Em nota, os advogados Edson Gonçalves e Gabriel Almeida Ferreira, que fazem a defesa de Bruno Alves, que teve a acusação arquivada por fata de provas, e foi solto, declararam que receberam “com muito entusiasmo a informação da decisão que restituiu a liberdade do Bruno. O Bruno esteve no último local em que a vítima foi vista, assim como alguns outros investigados, mas não teve participação em absolutamente nada. Retornou pra casa logo em seguida e permaneceu realizando suas atividades normais”, diz a nota.
A defesa de Alex declarou tomou ciência da denúncia apresentada pelo Ministério Público e que discorda “totalmente das imputações lançadas. Ainda que estejamos diante de um processo com enorme grau de sigilo, há informações que são públicas e que precisamos fazer ecoar”. Segundo a defesa, “Alex não participou de nenhum ato ilícito”.
O advogado Gabriel Almeida disse que “Alex não organizou, não planejou e tampouco determinou o sequestro e posterior morte desse jovem. A participação de Alex foi ter saído de sua residência em busca de algo que lhe pertencia. Após recuperar a TV, voltou pra casa. Alex não trocou de celular, não trocou de número, não saiu de seu endereço, constituiu advogado desde o início em que viu sua imagem circulando como suspeito”, declarou.
Segundo o advogado, “Alex sequer conhece o policial militar envolvido no caso e apontado como principal suspeito. A soltura do Bruno traz pra essa defesa esperança de que tão logo será a do Alex, tendo em vista se tratar de situações idênticas. A prova mais evidente que Alex não participou dos crimes são as ausências de comunicação entre os demais réus durante o dia. Satisfeito por ter sua TV recuperada, foi embora ciente de que não participaria de nenhum ato ilícito. Alex é inocente e nós provaremos isso”, disse o advogado.
Nós questionamos o advogado sobre o motivo de a televisão ter sido encontrada na casa de outro suspeito, e não na de Alex, já que a própria defesa afirma que ele teria ido ao local para buscar o aparelho. Também perguntamos qual a posição da defesa em relação às provas apresentadas pelo Ministério Público, como imagens e dados de geolocalização.
Em resposta, o advogado afirmou que “a geolocalização do Alex, assim como o histórico de ligação entre os acusados, não aponta absolutamente nada contra o Alex” e acrescentou: “Prova disso é que todos os locais por onde o carro em que o Lázaro estava passou, o Alex não esteve”.
A defesa ressaltou ainda que “não há nenhuma chamada entre os principais suspeitos com o Alex, o que aponta que Alex não teve nenhum poder de decisão”.
Sobre a televisão não ter sido encontrada na casa do cliente, o advogado declarou que “está devidamente justificada nos autos”.
A reportagem tenta contato com as defesas dos mais réus. Este espaço segue aberto para posicionamento.