A empresária e influenciadora digital Rayane Veloso, de 36 anos, está em tratamento de quimioterapia contra um câncer de mama. Ela descobriu o tumor este ano, já em estágio avançado, ao realizar o autoexame durante o banho. Mais comum em mulheres a partir dos 50 anos, o avanço dos casos da doença em graus agressivos entre mulheres jovens como Rayane chama a atenção de especialistas e enfatiza a importância de conhecer sinais de alerta.
Rayane ainda estava no puerpério do segundo filho quando foi surpreendida com o diagnóstico. “Nunca imaginei que eu fosse ter um câncer de mama, sem ter histórico familiar, tendo amamentado, tendo um estilo de vida saudável. Eu não preenchia nenhum requisito de predisposição genética e nem comorbidade física que pudesse favorecer o câncer. Então, foi um susto para todo mundo”, lembra.
Como ainda não estava na faixa etária indicada para o início dos exames de rastreio (40 anos), a empresária descobriu o tumor já com 7 centímetros e teve que começar a quimioterapia logo no início do tratamento. “Eu tive que reorganizar a minha vida de trabalho, de filhos (...), mas eu acredito que consegui levar de uma forma muito positiva essa primeira etapa (...). Foram seis meses lidando com sintomas, com uma nova realidade. E eu acho que, no saldo, foi positivo, principalmente por eu ter conseguido manter a minha cabeça muito boa”, destaca.
Apoio a outras mulheres
Rayane, que costumava usar seu perfil em redes sociais para mostrar a rotina familiar e de trabalho, decidiu usar a plataforma para orientar outras mulheres e apoiar pessoas que estão na mesma situação. A forma como a empresária enfrenta o problema rendeu um engajamento inesperado nas redes sociais dela. Ela, que costumava postar os retoques de luzes dos cabelos loiros que encantavam as seguidoras, decidiu compartilhar o momento em que raspou a cabeça em decorrência do tratamento.
“O cabelo é muito importante para a mulher. Diferente dos homens, que mudam o cabelo a toda hora (...). Mas, ao raspar a cabeça, eu decidi levar esse momento de forma leve. Eu me preparei psicologicamente para isso e aprendi a me olhar no espelho, a conseguir manter a minha autoestima e me sentir bonita, mesmo sem aquilo que tinha tanta representatividade para mim”, conta.
Em outra publicação, Rayane lança uma coleção de vestidos de festa inspirada na campanha Outubro Rosa, de conscientização sobre o câncer de mama, e reflete sobre a importância de celebrar a vida e de manter a autoestima durante o tratamento.
“Existe uma coisa que o câncer me ensinou: a vida não para. Porque uma mulher não é o seu diagnóstico. Ela continua tendo sonhos, tendo planos, vontade de se sentir bonita, de celebrar e viver momentos especiais (...). Porque existe beleza após a dor. Existem novos capítulos depois dos dias difíceis”, diz a empresária no vídeo.
Câncer de mama e idade
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), depois do câncer de pele, o de mama é o tipo mais comum e principal causa de morte por câncer entre as mulheres no país. Apesar de prevalente em pacientes a partir dos 50 anos, faixa que registra 4 em cada 5 casos da doença, diagnósticos cada vez mais frequentes em pacientes entre 20 e 40 anos de idade chamam a atenção dos especialistas e das autoridades de saúde no país.
Segundo o mastologista Andre Motoki, a identificação de nódulos em exames convencionais é muito mais difícil nas mulheres jovens por causa da densidade do tecido mamário. “A quantidade de tecido glandular na mulher jovem é muito maior. A parte do tecido onde surgem as doenças é branco (...) e o tumor nasce branco, aparece branco na mamografia. Então, é meio que ver o branco em cima do branco”, explica.
Sinais de alerta
Como o rastreamento por mamografia de rotina não é indicado pelo SUS ou por protocolos padrão para pacientes com menos de 40 anos (exceto para grupos de risco elevado), os tumores costumam ser descobertos por meio de sintomas. Por isso, a principal recomendação ainda é o autoexame para que a mulher mantenha vigilância alta sobre possíveis nódulos e mudanças na aparência nas mamas.
“O câncer geralmente é mais endurecido, irregular e fixo. Além disso, existem outros sinais como o derrame papilar (quando sai líquido pelo mamilo espontaneamente), principalmente quando sai sangue ou líquido transparente, igual à água. Vermelhidão na mama também é um sinal (...). Outra coisa são as retrações. O tumor, às vezes, vai puxando a pele e o mamilo para dentro, desviando o mamilo para os lados”, ensina Motoki.
Tumores agressivos
O médico explica ainda que os tumores em mulheres jovens tendem a ser biologicamente mais agressivos, com crescimento rápido. A maioria das jovens só descobre a doença quando surgem sintomas evidentes, como aconteceu com a Rayane. Dados do Panorama da atenção ao câncer de mama no SUS revelam que 7 em cada 10 mulheres jovens descobrem a doença já em estágios avançados (3 ou 4).
Especialistas associam o aumento de casos precoces a uma combinação de fatores como o aumento do sedentarismo, dietas ultraprocessadas e obesidade. O adiamento da primeira gestação ou a escolha por não engravidar, além do menor tempo de amamentação podem ter relação com a doença. Fatores hereditários também contribuem, porém somente em casos em que mãe e pai (apesar de raros, homens também podem ter câncer de mama) tiveram a doença.
Outro ponto que também é associado ao aumento de câncer de mama em jovens é o consumo de álcool. “Não tem dose segura. Então, não dá para falar para tomar aquela tacinha de vinho mais. Nenhuma dose”, enfatiza Andre Motoki.
Debate na Ales
Além de apoiar a campanha Outubro Rosa, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) também tem iniciativas com foco na prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama. Exemplo disso são projetos apresentados pelo médico oncologista e presidente da Comissão de Saúde da Casa, deputado Dr. Bruno Resende (União).
Duas iniciativas que tramitam conjuntamente (Projetos de Lei 161 e 324/2026) buscam garantir às mulheres com alto risco de desenvolvimento de câncer de mama a realização gratuita de exames genéticos para pesquisa de manutenção em genes relacionados à doença nas unidades públicas ou conveniadas do SUS.
O autor argumenta que o câncer de mama continua sendo um dos principais desafios de saúde pública e que parte dos casos está associada a mutações hereditárias. Ainda afirma que identificar essas mutações pode permitir tratamento mais adequado e personalizado, avaliação de risco para familiares e adoção de medidas preventivas, com potencial para reduzir mortalidade e custos futuros do sistema de saúde.
Dr. Bruno também sustenta que hoje o acesso ao exame ainda seria limitado pelo custo na rede privada e que criar o programa ajudaria a ampliar o acesso à medicina de precisão e reduzir desigualdades no tratamento oncológico.
No Espírito Santo também já é assegurado à mulher que possua histórico familiar de caso de câncer de mama o direito de realizar o exame de mamografia de forma gratuita e prioritária. A medida é fruto da Lei 12.480/2025, de iniciativa da deputada Janete de Sá (PSB).