Além de lidar com as condições climáticas adversas, o produtor de café enfrenta problemas logísticos que parecem estar longe do fim. Dados do Conselho de Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) mostram que desde o segundo trimestre de 2021, apesar da expressiva safra do ano passado, os embarques de café do Brasil sentem os impactos dos gargalos logísticos observados mundo afora.
O Notícias Agrícolas ouviu exportadora, analistas de mercado, o Centro do Comércio de Café de Vitória e o próprio Cecafé para entender com profundidade os impactos logísticos para o setor cafeeiro e as perspectivas de curto e longo prazo para um problema que atinge toda a cadeia produtiva do país.
Com a recuperação das economias globais, a demanda pelo transporte de mercadorias aumentou e os recentes problemas com a Covid na China pressionaram ainda mais a logística global. Além disso, com a seca prolongada e dois episódios de geadas em julho, a preocupação com as entregas preocupam cada vez mais quando o assunto é café.
Em evento realizado na última quarta-feira (25) pela Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas (Cocapec), o diretor geral do Cecafé, Marcos Matos, reconheceu que o Brasil poderia estar exportando mais, apesar do recorde histórico já registrado no período entre janeiro e julho.
“Estamos sim discutindo que o Brasil poderia estar exportando substancialmente mais, poderíamos estar em um limite superior. Uma parte fica no porto, são embarques cancelados e isso gera uma dificuldade e a nossa preocupação é com o futuro”, comenta.
Apesar do cenário de incerteza, Marcos afirma que o setor vem buscando driblar os problemas e consegue atender os mercados. “A safra é menor, mas café a gente não olha apenas um ano, é preciso olhar por ciclo. Ainda temos que aguardar os laudos técnicos, temos que torcer para que as condições climáticas sejam melhores, mas ainda podemos ter uma safra de 2022 com condições adequadas. A gente tem que seguir em uma linha de que o Brasil vai seguir atendendo as demandas e os mercados da forma como sempre fez. Agora, quebrar recorde realmente fica um pouco mais a frente, em 2023 ou 2024, mas nesse período o Brasil seguirá atendendo os mais diversos e exigentes mercados do mundo”, acrescenta.
Já quando o assunto é os demais países produtores, o Cecafé afirma que o Brasil segue na frente não somente em alta escala de produção, mas também em qualidade. É importante ressaltar que países como Colômbia, Honduras e até mesmo o Vietnã também enfrentam adversidades climáticas que comprometem de certa forma a produção, o que aumentam as preocupações com a oferta mundial de café.
“Há espaço para produzir, há espaço para exportar mais, mas precisamos trabalhar juntos. O Brasil tem o diferencial de ser o maior exportador de café sustentável do mundo e já atendemos os mais exigentes mercados”, comenta.
SITUAÇÃO NO ESPÍRITO SANTO É AINDA MAIS COMPLICADA
Apesar do avanço nos embarques do conilon, de pelo menos 20% no mês julho segundo dados do Cecafé, os números poderiam ser ainda mais expressivos se não fossem os problemas logísticos, mas também os gargalos de infraestura no Porto de Vilha Velha, no Espírito Santo.
“O problema aqui começa na estrutura. O porto aqui não tem capacidade para navio de grande porte, o porto tem uma limitação que só tem um terminal, que embora seja amplo, ele é insuficiente para nossa necessidade”, comenta Marcio Cândido Ferreira, presidente do Centro do Comércio de Café de Vitória, que também afirma que o estado tem em média um navio e meio por semana, “o que de qualquer maneira continua sendo navio de pequeno porte e depois de toda essa dificuldade enfrentada aqui, vai enfrentar a dificuldade em Santos e no Rio de Janeiro, e aí a coisa fica realmente mais complicada porque se os que já estão lá já enfrentam problemas, imagine quem chega depois com os contêineres”.
O aumento de demanda com a retomada da economia só aumentou o problema. “A companhia de navegação hoje não dispõe de oferta, de espaço em tempo que realmente a commoditie de café precisa. Hoje os navios só oferecem espaço com dois ou três meses, existe uma dificuldade muito grande a nível Brasil”, acrescenta.
Márcio relata ainda que quando chega a oportunidade do embarque, também tem sido frequente as companhias marítimas cancelaram as escalas, ou seja, ter o navio no porto não significa necessariamente o embarque.”Imagine você não cumprir o embarque em um momento que o café está em nível recorde da história, com bastante demanda de crédito e a outra ponta, que é o torredor, esperando ansiosamente que chegue a mercadoria para não sofrer interrupção na sua cadeia de produtos”, afirma.
A situação fica ainda mais complexa porque, segundo Márcio, as companhias não têm avisado com antecedência quando há espaço para embarque. Para tentar driblar os impactos, exportadores do Espírito Santo têm enviado o café até Santos ou Rio de Janeiro, na tentantiva de efetivar os embarques.
Falando em números, o CCCV afirma que o Espírito Santo deixa de embarcar uma média de 100 mil sacas por mês pelo porto do ES. Ou seja, esse café precisa sair do estado e ir para outros estados. “Ou seja, café conilon capixaba está sendo transportado para embarque no Rio e até em Santos. No Rio a custo de US$ 30 a tonelada e em Santos US$ 60 por tonelada e isso arcado pelo próprio importador que mesmo com as dificuldades prefere bancar e reduzir os riscos de ficar sem café”, acrescenta.
Localizada na maior região produtora de café tipo arábica do Brasil, a exportadora Guaxupé também relata as dificuldades dos últimos meses. “Temos observado vários problemas como falta de espaço nos navios, cancelamentos de booking, postergação de embarques pelos armadores, omissão de navios, falta de espaço nos terminais portuários, etc”, afirma ao Notícias Agrícolas.
Os números da exportadora mostram ainda que aproximadamente 30% dos embarques estão rolando de um mês para outro, mas minimiza risco de restrição à oferta global do frão. “Não há preocupação com embarques no longo prazo, os clientes tem consciência dos problemas logísticos e temos mantido todos eles muito bem informados de toda situação. Também não há uma renegociação para contratos já firmados, os mesmos continuam ativos e problemas logísticos são discutidos e resolvidos dentro dos meses do contrato”, complementa.
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Fonte: Notícias Agrícolas